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Ser "só" mãe

Inúmeras são as vezes em que ouço mães, em licença de maternidade e/ou mães a tempo inteiro, lamentarem-se pelo facto de não terem tempo para mais nada, de não contribuírem para o orçamento familiar, de não se sentirem importantes e reconhecidas pelo seu trabalho. 

Eu mesma deixo-me levar muitas vezes, e aumento com as minhas queixas, este corpo de dor feminino ligado ao desmerecimento ao acto de cuidar, nutrir, acarinhar uma (ou mais) crianças que são, afinal, os atributos primordiais do "ser feminino" seja ele homem ou mulher.
 

Os ecos que me chegam são muitos e vão desde a culpabilização da criança ...

"ele/a não dorme mais do que 10 minutos, passa o dia todo ao colo, não me deixa fazer nada, nem banho consigo tomar."

"Se o/a levo para a horta comigo destrói tudo, eu digo-lhe para não mexer e ele/a não me houve
, não consigo fazer nada todo o dia".

"quer atenção exclusiva, não me posso distrair com nada, estou cansada"


... à inevitável comparação com as outras crianças...

"eu não entendo, os outros miúdos dormem toda a noite e só esta/este é que não dorme."


"eu nunca vi uma criança chorar tanto, a minha mãe também não"

"quer mamar de 5 em 5 minutos. Por ele/ela eu passava o dia sentada a dar-lhe de mamar".

Também se ouve muito a auto-desvalorização do actividade de cuidar de outrem, especialmente por não ser assalariada ...

"se eu ganha-se pelas horas que fico a cuidar dele/ela, estava rica"

"eu queria contribuir com alguma coisa de importante para a família, em casa sem ganhar dinheiro, sinto-me uma inútil"


E, tantas vezes, as nossas crianças tornam-se um verdadeiro impecilho face a actividades mais nobres..


"se ele/ela não fosse tão dependente eu conseguia limpar a casa"


"quem me dera que ele/ela dormisse a sesta para eu conseguir cuidar da horta"


"eu quero trabalhar a partir de casa para poder estar com ele/ela, ainda não sei no quê mas mesmo que soubesse, ele/ela não me larga um segundo"
O discurso a que nos sujeitamos, dia após dia, é o de que todas as crianças são "melhores" do que a nossa, todas as mães são mais "produtivas do que nós, todas as casas são mais "confortáveis" do que a nossa, todas as mulheres são mais "cheirosas e arranjadas" do que nós, todas as famílias são mais "ricas do que nós" .....


Paremos uns segundos! Observa com atenção! Lembra-te da família A, B, C, D que conheces.... onde estão essas verdades com que te martirizas?


Viste-as? Consegues recolher factos observáveis?


Não, não consegues, são fruto das tuas crenças e começam com um simples sou "só" mãe.

Também ouço muitas vezes "ninguém entende/reconhece/ valoriza o trabalho que isto dá, é mais cansativo do que ir trabalhar". É verdade, há muita gente que não entende, reconhece, valoriza, incluindo TU (e EU, todas as vezes que me distraio e mergulho num corpo de dor que não me pertence).








Gratidão ♥ *•.¸Paz¸.•♥•.¸Amor¸.•♥•.¸Sabedoria¸♥ •.¸Prazer¸.•♥•.¸Alegria¸.•♥•.¸¸ Vida

1 comment:

  1. Sou maẽ a tempo inteiro... Com o meu primeiro filho, desesperava pois queria fazer as coisas e não conseguia. Um dia pensei: Sou mãe a tempo inteiro porque quero e gosto... apartir desse dia se ele estivesse acordado borrifava-me para toda e qualquer tarefa para estar apenas e só com ele. Fazia as coisas qd ele dormia e outras, bem outras ainda estão por fazer hahaha. Com o tempo ele foi crescendo e fui ajustando uma ou outra tarefa que podia fazer com ele acordado e que ele pudesse ajudar... era uma forma de brincar.

    E com ele sempre foi fácil fazer as tarefas, desde que deixasse ele participar, corria bem... Claro que escolhia as que ele podia participar para qd estivesse acordado :)

    Agora com a miuda faço igual...

    O trabalho que faço, cuidar dos miudos, é para ser reconhecido apenas por mim e por eles... o resto é paisagem!!

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